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"A Revolução Francesa começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (de Bonald).
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São Paulo, quarta-feira, 15 de abril de 2015

O mundo desconhecido do xadrez

Autor: Edson   |   22:41   1 comentário


Desde 1995 o multimilionário budista Kirsan Ilyumzhinov (foto acima com Vladimir Putin) controla a Federação Internacional de Xadrez (FIDE), ganhando sucessivamente as eleições para a presidência da entidade.

Ilyumzhinov, ex-sargento do exército soviético, é uma figura controversa, sem dúvida, e destroçou a imagem da FIDE diante dos patrocinadores ao levar importantes torneios para serem disputados na Líbia e Irã, por exemplo (Cfr: Eleições na Fide, Blog Giovanni Vescovi, 21/7/2010).

Ilyumzhinov com o ex-ditador da Líbia, Gaddafi.
Desde 1994, ele é presidente da República da Calmúquia, uma das mais pobres regiões com autônomia da Rússia, seus habitantes sobrevivem de doações provenientes de Moscou.

Utilizando suas prerrogativas como presidente da FIDE, transformou Elista, capital de seu país, no centro mundial do xadrez. Calmúquia tornou-se famosa depois ter sido escolhida para sediar as Olimpíadas de Xadrez em 1998.

Singular e curioso é o fato de que Ilyumzhinov consiga, ao mesmo tempo, ser presidente de uma região e do órgão máximo do xadrez. O jornal argentino Clarín explica a razão:
¿Cómo puede desempeñar los dos cargos al mismo tiempo? Aquí su respuesta: "A mí me sirve ser presidente de la federación porque así se conoce mi provincia de 300 mil habitantes. Nadie sabía nada de ella diez años atrás. Su economía se basa en donaciones que llegan desde Moscú y no tiene economía industrial. Y como presidente de Kalmukia puedo invitar a que se invierta en el ajedrez, a que apoyen los torneos." (1)
Com a queda dos investimentos privados na FIDE, Ilyumzhinov se orgulha de ter aplicado no xadrez cerca de 50 milhões de dólares.

Apesar de sediar importantes torneios em países ditatoriais - o que trouxe péssima imagem para a FIDE -, Kirsan Ilyumzhinov parece defender a inviolabilidade da propriedade privada e mandou construir uma catedral Católica em seu país apesar de, na época, lá somente existir um único católico. (2)

Para melhorar ainda mais a imagem do xadrez internacional Kirsan Ilyumzhinov teve a coragem de ir para a frente das câmeras de televisão na Rússia e contar como ele foi abduzido por extraterrestres. E um parlamentar russo, para ajudar, mandou perguntar à Moscou o que um político que possui acesso a documentos secretos, como é o caso de Ilyumzhinov, deve fazer se contactado por alienígenas. (3)

Parece até piada. Quem me dera...

Desde a aposentadoria de Kasparov, os russo perderam a precedência no esporte, tendo atualmente apenas cinco jogadores na lista dos 20 melhores do mundo, e o melhor deles ocupa a quarta colocação, quase setenta pontos atrás do primeiro colocado, o jovem norueguês e atual campeão mundial Carlos Magno.

*  *  *

Já está na hora dos russos abandonarem a ditadura que impõe a FIDE. Certamente esta perderá os milhões que seu presidente investe, dinheiro, aliás, de fonte muito suspeita. Mas provavelmente recobrará muito mais com os investidores privados. E se não recobrar? Ao menos terá o nome do xadrez limpo. E teremos novamente um esporte e não uma ditadura soviética e seus contatos de primeiro grau com marcianos.

Assembleia Geral da FIDE, agosto de 2014, na Noruega, que reelegeu Ilyumzhinov. O Brasil votou pela permanência do excêntrico, mas milionário, político russo.
___________

1 - Diario El Clarín, El extraño Sr. Ilyumzhinov.

2 - ABC, Ilyumzhinov, el iluminado.

2 - BBC Brasil, Parlamentar russo quer investigação sobre político que diz ter sido abduzido.

São Paulo, quarta-feira, 28 de abril de 2010

Xadrez: Jogador búlgaro perde partida por se negar a cumprimentar adversário

Autor: Edson   |   20:18   3 comentários

Nigel Short enfrentou Kasparov pelo título mundial de xadrez em 1993. Ás seis horas, em ponto, o GM inglês se levantava para pegar uma tradicional xícara de chá.

O fato é antigo, mas vale a pena registrar.

Em 2008 ocorreu uma cena imprevista em uma competição de elite do xadrez mundial. No famoso torneio de Corus, Holanda, o Grande Mestre (GM) inglês Nigel Short estendeu sua mão para cumprimentar seu oponente, o número dois da Bulgária, GM Ivan Cheparinov, mas supreendemente este ignorou conscientemente a tradicional cortesia tão comum nesse esporte. A cena se repetiu novamente segundos depois quando acionado o relógio para inicio da partida.

Cheparinov disse que o motivo que o levou a se recusar a cumprimentar foi por causa de uma entrevista em que Short criticou a equipe de xadrez da Bulgária.

Para quem não conhece as leis enxadrísticas, atualmente a FIDE (Federação Internacional de Xadrez) pune com derrota tal falta de cortesia. Equivalente a um cartão vermelho. E foi o que exigiu o GM inglês. No vídeo abaixo podem ver ele levantando o braço para chamar o árbitro que nessa ocasião aplicou a pena.

Cheparinov posteriormente apelou da decisão, pois na época a lei não tinha ainda entrado em vigor. Jogou-se, então, um nova partida na qual Short venceu após seis horas de confronto.

Talvez para uma pessoa não habituada com o xadrez profissional, a pena possa ser vista como um exagero. Mas assim não pensam os atletas que dedicam grande parte de sua vida sob um tabuleiro de 64 casas e 32 peças.

Por exemplo, essa falta da mais simples ética exadrística provocou protestos de jogadores brasileiros. O legendário GM Mequinho (terceiro melhor do mundo na década de 70) disse que era inaceitável a atitude de Cheparinov e reclamou do abrandamento da pena. Na mesma linha de Mequinho, o jovem GM catarinense de nascimento mas curitibano de coração (espero! pois mora na capital paranaense) Alexandr Fier afirmou que o búlgaro merecia mesmo a derrota.

Portanto, novatos, xadrez não é jogo de damas, é esporte olímpico. E a cordialidade é uma regra do jogo.