Frase

"A Revolução Francesa começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (de Bonald).
São Paulo, sábado, 12 de maio de 2007

Gemido da fidelidade

Autor: Edson   |   14:53   Seja o primeiro a comentar

Hoje em dia, os anticomunistas são mal vistos - senão combatidos - em quase todos os ambientes católicos, e os pró-comunistas são aí bem vistos - ou, no mínimo, não combatidos com a mesma energia com que se combate um anticomunista. E estes, com tristeza podem dizer: Extraneus factus sum fratribus meis, et peregrinus filiis matris meae – Tornei-me um estranho para meus irmãos, e um desconhecido para os filhos de minha mãe (Ps. LXVIII, 9). É o gemido da fidelidade.

São Paulo, segunda-feira, 23 de abril de 2007

Um recado a Catellius

Autor: Edson   |   23:13   7 comentários

Realmente, como o Sr. profetizou, não autorizei nenhum comentário seu. Nem mesmo aquele no qual você fez essa profecia e pensou que talvez eu a esse publicasse. Como você afirmou que não se importaria com a não publicação, então dispenso-me de dar aqui as devidas razões. Quereria ter enviado esta resposta a seu e-mail; não o encontrando em sua ficha no Blogger, publico aqui temporariamente este recado.

Edson

Dados sobre o referendo de Portugal

Autor: Edson   |   22:28   1 comentário

No dia 11 de fevereiro, ocorreu em Portugal um referendo sobre o aborto. Muito já se noticiou sobre ele, apenas coloco aqui neste espaço alguns dados que me parecem - na melhor das hipóteses - desconhecidos por alguns intelectuais, jornalistas e - quiça - religiosos favoráveis a "matança dos inocentes".

- Dos 8.832.628 eleitores inscritos, apenas 3.851.613 (43,61%) votaram.

- A abstenção somou 56,39% (4.981.015), fazendo com que o referendo não tivesse efeito vinculativo.

- Dos que votaram (apenas 43,61% dos eleitores): 59,25% o fizeram no SIM e 40,75% no NÃO.

- Os 2.238.053 que optaram pelo SIM representam apenas 25,34% de todo o eleitorado.

- Desta minoria, muitos terão votado a favor da prática do aborto livre. Mas muitos também terão sido embalados pelas enganosas promessas de campanha, algumas das quais prometiam até a diminuição desta prática.

- Assim é fácil perceber que faltava completamente legitimidade ao primeiro ministro socialista para levar adiante qualquer alteração da lei de liberalização do aborto.

Como explicar, em um ambiente público profundamente dividido, que só 43,61% dos eleitores tenham acorrido às urnas? Seria essa alta abstenção fruto do desinteresse, ou até mesmo da indiferença?
Em entrevista à agência católica de notícias, Zenit, o diretor de campanha de Ação Família afirmou a esse propósito:

“Há, é claro, uma parcela de pessoas alheadas do processo político, seja por desinteresse, seja por falta de formação. 

“Uma outra parcela dos abstencionistas é composta de pessoas que ficaram confusas com as idas e vindas do debate que, ao tentar ocultar o que realmente estava em causa, muitas vezes mais confundiu do que esclareceu.

“Por fim, uma parcela ponderável dos que se abstiveram fê-lo por demonstrar incômodo ou até oposição aberta a que o direito à vida fosse levado a referendo. Entre estes últimos, estou convencido de que muitos terão sido cristãos. E esta oposição surda é um dos fatores que retira legitimidade à fraca vitória do SIM”.

São Paulo, domingo, 22 de abril de 2007

Aborto e incoerências

Autor: Edson   |   15:49   1 comentário

É interessante ver como os fávoreis à desciminalização do aborto usam certas frases psico-sentimentais incoerentes para justificar sua posição. Vejamos um exemplo:

Para o Dr. Aníbal Faúndes, autor do livro O drama do aborto em busca de um consenso, "Não há ninguém que ache o aborto bom. Mas a questão é: condenar a mulher vai resolver o problema?" (A Tarde, 22-4-07).

Bem, se realmente o Dr. Aníbal considera o aborto como um mal a ser resolvido, então é louvável que procure soluções para resolvê-lo. Mas, o que me fica na cabeça ao ler a pergunta posta por ele é o seguinte: será que descriminalizando o aborto vai resolver o problema do aborto? Mutatis mutandi, Isso não seria como querer descriminalizar o roubo numa tentativa de solucionar o problema dos assaltos? Segundo esse raciocínio, poderia-se fazer a mesma pergunta do doutor para a questão dos bandidos: "Não há ninguém que ache o roubo bom. Mas a questão é: condenar o bandido vai resolver o problema?"

Para mim, pobre camponês, esse argumento, além de incoerente, abre margem para desmantelar toda a ordem jurídica.

São Paulo, domingo, 18 de março de 2007

Revolução e Contra-Revolução ONLINE

Autor: Edson   |   10:54  

Aos que se interessarem, convido a visitarem o site:

http://www.revolucao-contrarevolucao.com

Além do conteúdo do livro "Revolução e Contra-Revolução", escrito pelo professor Plínio Corrêa de Oliveira, o site disponibiliza estudos relativos à tese do livro.

São Paulo, sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Platão no sindicado

Autor: Edson   |   14:39   Seja o primeiro a comentar

Tem-se falado muito em liberdade, aproveito a ocasião para divulgar um artigo elucidativo sobre esse tema, escrito pelo professor Plinio Corrêa de Oliveira e publicado no jornal Folha de São Paulo.





O medíocre possui alguma noção de muitas coisas. Noção vaga e flutuante, bem entendido, que não lhe custe adquirir nem conservar. Ele imagina atingir o píncaro de si mesmo quando encontra, para designar cada noção, alguma palavra vistosa ou que, pelo menos, não faça parte do mais corriqueiro linguajar.

Entre nós, uma das palavras preferidas pelo medíocre é "radical". Ele sente no ar que tachar um desafeto de radical é ser nocivo a este. Ser "radical" provoca uma repulsa meticulosa e exacerbada. Então é bom ser anti-radical, porque isto atrai simpatias. Eis assim nosso medíocre a quixotear anti-radicalismo por onde quer que passe. Mas ele murchará e mudará de assunto assim que alguém lhe objete que um anti-radicalismo tão chamejante não passa de mera forma de radicalismo. Pois para debater essa objeção – aliás tão obviamente verdadeira – o medíocre precisaria conhecer exatamente e a fundo o que quer dizer "radical". Ora, seu espírito flanador aborrece os conceitos precisos e profundos.

Análogo é o uso que o medíocre faz da palavra "liberdade". Ela lhe lembra, ao mesmo tempo, a surrada trilogia "liberdade, igualdade, fraternidade" (que ele já ouviu elogiar mil vezes), da qual gosta. Liberdade recorda, ademais, a vistosa estátua do porto de Nova York, que ele tem visto em fotografias e em anúncios. E também um vasto e populoso bairro da cidade de São Paulo. Em seu tempo de moço fumava cigarros "Liberty". E, de modo geral, está-lhe no espírito a idéia de que liberdade é algo que dá a cada qual a possibilidade de fazer absolutamente tudo quanto ache deleitável.

Quando criança, esta palavra lhe entrou no espírito. Seu professor primário retinha os alunos faltosos, depois das aulas, a copiarem, incontáveis vezes, frases como esta: "O menino bom é obediente e aplicado". Quando se esgotava o tempo, o mestre exclamava contente: "Liberdade, liberdade!" E todos os diabretes disparavam para a rua, ávidos de extravagâncias e tropelias. Este era o núcleo ideológico central que lhe ficava acerca da palavra liberdade. O cigarro, o monumento, o bairro, homenageavam de um modo ou de outro essa coisa tão gostosa que é a liberdade. A trilogia lhe parece conter o mesmo pensamento com que a palavra florescia, sorridente, nos lábios do professor.

A superficialidade do medíocre, ele mesmo não imagina que possa ter efeitos entretanto profundos. Se alguém lho dissesse, ele riria, incrédulo.

Enfrentar um medíocre seria tarefa fácil para qualquer um. Menos fácil é enfrentar os medíocres aos centos ou aos milhares. Mas essa é, hoje em dia, a contingência inevitável de quem quer que se entregue à publicidade. Pois os medíocres enchem a terra.

Não creio que eles sejam dos mais numerosos a ler estas linhas, que entretanto tratam deles. Compreendo que elas não lhes sejam confortáveis. Mas um lance de olhos num tópico ou noutro será suficiente para enfurecer vários. Pois todo homem – até o medíocre – é vivo e perspicaz quando se fala dele.

Entretanto, não hesito em afirmar até ante os medíocres, o maléfico, o profundamente maléfico de sua frivolidade.

Persuadido de que a liberdade é um bem, o medíocre conclui que quanto mais liberdade, melhor. Liberdade absoluta é, para ele, felicidade total. Eleitor, o medíocre dará seu voto ao candidato que lhe prometa liberdade sem limites. Candidato, o medíocre atrai o apoio de todos os seus congêneres. De onde transforma sua campanha eleitoral numa prelibação da liberdade absoluta, total e sem freios. Naturalmente, isto acarreta, em todas as legendas, a presença e a vitória de uma porcentagem de medíocres, maior em umas, menor em outras. Daí um impulso difuso das atividades legislativas e governamentais rumo ao extravagante, ao descabelado, ao desabrido. Pois se tudo é permitido... E da esfera estatal, esse impulso se estende a todos os outros setores da sociedade.

Quadro já muito conhecido da realidade atual? – Considere o leitor esse texto:

* * *

"Quando um povo é devorado pela sede de liberdade, acontece-lhe ter à testa líderes serviçais, que lha proporcionarão tanta quanto ele queira, a ponto de se embriagar com ela.

"Se os governantes resistem então aos desejos sempre mais exigentes de seus súditos, passam a ser qualificados de tiranos.

"Ocorre também que quem se mostra disciplinado em relação aos superiores é definido como homem sem caráter, servil.

"E que o pai, alarmado, acabe por tratar seus filhos como iguais, não sendo mais respeitado por eles.
"O mestre não ousa mais reprovar os alunos, e estes se riem dele.

"Os jovens reivindicarão os mesmo direitos, a mesma consideração atribuída aos velhos, e estes últimos, a fim de não parecerem por demais severos, acabam dando razão aos jovens.

"Nesse clima de liberdade, e em nome desta, não há consideração nem respeito por ninguém.
"Em meio a tanta licença, nasce e se desenvolve uma má planta: a tirania".

Quadro da realidade presente?

Sem dúvida, o quadro descreve bem os dias borrascosos em que vivemos. E chama a atenção, com sutileza e precisão geniais, para o proveito que deste tufão de demo-mediocridade tiram os semeadores de tirania. ou seja, hoje, os comunistas.

Mas o quadro data... de muito antes: do século IV antes de Cristo. Seu autor é Platão, que assim denuncia os radicais do liberalismo como sendo, na democracia, os verdadeiros pais da ditadura. O trecho é de "A República".

Isto não é só do século IV antes de Cristo, nem só de hoje. É de sempre. Está na própria natureza das coisas
* * *

E tenho mais algo a acrescentar: não transcrevi o grande filósofo diretamente. Limitei-me a verificar que essas palavras são realmente suas. Simplesmente foram elas retiradas, à maneira de condensação, do texto originário autêntico (cfr. "The Dialogues of Platon", Encyclopaedia Britannica, Inc., Chicago – London – Toronto, 1952, p. 412).

Esta condensação, um amigo encontrou-a, emoldurada e suspensa, numa parede da sede... de um sindicato. Eis como o grande e solene Platão penetrou assim num sindicato. E não de ricos empregadores. Nem de cultos professores. Mas de... choferes de táxi de Roma!

Este é o fruto, num povo, não da demagogia, mas da cultura e da tradição. Insisto na palavra "tradição".

São Paulo, quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Guerra Psicológica e Revolução Cultural

Autor: Edson   |   10:14   Seja o primeiro a comentar

Fonte: A Cavalaria Não Morre - Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira,
recolhidos por Leo Daniele.
Resumo: A grande anarquia, como uma caveira de foice na mão, parece rir sinistramente aos homens, da soleira da porta de saída do século XX(*), onde os aguarda


A guerra psicológica pode ser sumariamente definida como um conjunto de operações psicológicas destinadas a atuar sobre o ânimo do adversário, de sorte a levá-lo à capitulação antes mesmo que qualquer operação o tenha derrotado pela força.

Ela assegura ao atacante as vantagens da vitória, sem os esforços, os custos e os riscos da guerra.
Não se pense, aliás, que a guerra psicológica exclui inteiramente o emprego da força. Pois a intimidação do adversário faz parte de tal guerra, e certas operações de força ("ivasões de terras", sabotagens, atentados, sequestros, motins, etc) podem intimidar e levar à capitulação a classe social que se queira derrubar.

A guerra psicológica visa a psique toda do homem, isto é, "trabalha-o" nas várias potências de sua alma, e em todas as fibras de sua mentalidade.

Como uma modalidade de guerra psicológica revolucionária, a partir da rebelião estudantil da Sorbonne, me maio de 1968, numerosos autores socialistas e marxistas em geral passaram a reconhecer a necessidade de uma forma de revolução prévia às transformações políticas e socio-econômicas, que operasse na vida cotidiana, nos costumes, nas mentalidades, nos modos de ser, de sentir e de viver. É a chamada "revolução cultural".

O referido conceito de "revolução cultural" abarca, com impressionante analogia, o mesmo campo já designado por "Revolução e Contra-Revolução" (ArtPress, 4ª Edição, São Paulo), em 1959, como próprio da Revolução nas tendências.

A chave da Contra-Revolução tendencial não consite tanto em entrar nas tendências más, e dirigir contra elas uma guerrilha, quanto em conhecer as tendências boas, estimulá-las e favorecê-las.

A Revolução cultural é uma verdadeira guerra de conquista - psicológica, sim, mas total - visando o homem todo, e todos os homens de todos os países.

Revolução tendencial, a nova guerra

A Contra-Revolução não é nem pode ser um movimento nas nuvens, que combata fantasmas.

Ela tem de ser a Contra-Revolução do século XX(*), feita...

... contra a Revolução como hoje em concreto ela existe e, pois, contra as paixões revolucionárias como hoje crepitam;

... contra as idéias revolucionárias como hoje se formulam, os ambientes revolucionários como hoje se apresentam, a arte e a cultura revolucionárias como hoje são;

... contra as correntes e os homens que, em qualquer nível, são atualmente os fautores mais ativos da Revolução.

[É preciso] antes de tudo, acentuar a preponderante importância que (...) cabe a Revolução nas tendências.

Essas tendências desordenadas, que por sua própria natureza lutam pode realizar-se, já não se conformando com toda uma ordem de coisas que lhes é contrária, começam por modificar as mentalidades, os modos de ser, as expressões artísticas e os costumes, sem desde logo tocar de modo direto - habitualmente, pelo menos - nas idéias.

Dessas camadas profundas, a crise passa para o terreno ideológico. Com efeito - como Paul Bourget pôs em evidência em sua célebre obra "Le Démon du Midi" - "cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu". (Op. cit., Librairie Plon, Paris, 1914, vol. II., p. 375)

Assim, inspiradas pelo desregramento das tendências profundas, doutrinas novas eclodem.

Essa transformação das idéias estende-se, por sua vez, ao terreno dos fatos, onde passa a operar, por meios cruentos ou incruentos, a transformação das instituições, das leis e dos costumes.

A grande anarquia, como uma caveira de foice na mão, parece rir sinistramente aos homens, da soleira da porta de saída do século XX, onde os aguarda

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(*) O texto foi escrito no século passado.

São Paulo, quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Rumo a um "paraíso" revolucionário utópico, radicalmente igualitário e libertário: a autogestão integral

Autor: Edson   |   12:26   2 comentários

Resumo: Socialistas, comunistas e anarquistas compartilham uma origem doutrinal comum. Permanecem unidos diferenciando-se apenas nos métodos de ação - na aspiração de uma mesma meta final, radicalmente igualitária e libertária; e por isso, no Ocidente, é possível ver, incontáveis vezes, esses grupos formando frentes de ação comum, e até coalizões governamentais para desenvolver determinadas etapas do processo revolucionário.

Extraído do livro:
"España, Anestesiada sin percibirlo, amordazada sin quererlo, extraviada sin saberlo
- La obra del PSOE Comisión de Estudios de TFP-COVADONGA, 1988"

Os antecedentes ideológicos do socialismo se remotam, para não ir muito longe, à Revolução Francesa. Na medida em que esta foi se radicalizando e se aproximando de seu auge, surgiram em seu seio setores extremistas. A Revolução adquiriu asssim, durante o Terror, efêmeros, mas nítidos, aspectos comunistas. Os revolucionários radicais interpertaram o lema liberdade, igualdade, fraternidade até suas últimas consequências. Ou seja, não era só necessário eliminar aos reis e à nobreza, senão também os proprietários rurais, reis nos campos, nas empresas e no comércio, e aos pais de famílias, reis do lar. O mais característico representante destes setores foi Babeuf. [1]

Naturalmente, a prematura revolução dentro da Revolução do extremista Babeuf fracassou, mas a bandeira revolucionária por ele levantada seria de um ou outro modo retomada ao longo do século XIX pelas chamadas correntes do socialismo utópico [2]. Estas atuaram nos tumultos revolucionários que sacudiram a Europa em 1848, e especialmente na sublevação da Comuna de París de 1871.

Se foi definindo assim o ideal utópico revolucionário, segundo o qual na sociedade devem ser abolidas a propriedade privada e as diferenças entre as classes sociais. Se eliminará então toda forma de superioridade entre os homens, desaparecendo inclusive a distinção entre governantes e governados. Neste novo estado de coisas a liberdade será absoluta, porque serão suprimidas a lei moral e as leis coercitivas que regem a sociedade civil. Se estabelecerá o amor livre. Desaparecerão por inúteis a polícia, o Governo, o Estado e, por suposto, a Religião e a Igreja. O homem se libertará, por fim, da Lei Natural impresa pelo Criador no mais íntimo de sua alma. O impossível se tornará realizável: a anarquia, no sentido etimológico da palavra (an, em grego privado de, e arché, governo) não resultará no caos. Daí as descrições românticas que muitos autores fazem do modo da vida tribal, ao pintá-la com as aparências mais belas possíveis.

Friederich Engels descreveu com estas palavras a sociedade tribal dos índios iroqueses: "Admirável constituição dessas pessoas, em toda a sua juventude e com toda sua simplicidade! Sem soldados (polícia, nobreza, reis, governadores, prefeitos, juízes) sem prisioneiros nem processos, tudo anda com regularidade. Todas as querelas e todos os conflitos são resolvidos pela coletividade a quem concernem, a pessoa ou a tribo, ou as diversas pessoas entre elas. (...) Não faz falta nosso estorvo de aparato administrativo, tão vasto e tão complicado. (...) economia doméstica é comum para um série de famílias e é comunista; o solo é propriedade da tribo e, só a princípio, tem as casas pequenas hortas. (...) Todos são iguais e livres".

Com base nesta descrição, explica em seguita a etapa final da revolução comunista: "Assim, pois, o Estado não existe desde toda a eternidade. Houve sociedades que se passaram sem ele, que não tiveram nenhuma noção de Estado e da autoridade do Estado. Em certo grau de desenvolvimento econômico, necessariamente unido a separação da sociedade em classes, esta divisão fez do Estado um necessidade. Agora nos aproximamos, a passo de gigante, a um grau de desenvolvimento da produção em que, não só deixou de ser uma necessidade a existência destas classes, senão que chegou a ser um obstáculo positivo para a produção. As classes desapareceram tão fatalmente como surguiram. (Com o desaparecimento das classes, desaparecerá inevitavelmente o Estado). A sociedade que organizará de novo a produção sob as bases de uma associação livre e igualitária de produtores, transportará toda a máquina do Estado para onde, desde então, o corresponde ter seu posto: o museu de antiguidades".(Cfr. Frederich ENGELS, Origem da Família - A propriedade e o Estado, pp. 122, 216-217). [3]

Com a entrada em cena de Carl Marx, auxiliado por Engels, as correntes revolucionárias encontraram nas teorias de ambos uma sistematização filosófica e um método de análises para iniciar um processo que levasse a utopia à prática. Foi o chamado socialismo científico ou comunismo. Nasceu daí o movimento internacional para realizar a revolução socialista. De seu seio saíram os líderes do partido bolchevique russo que, com Lenin na diantera, fizeram a revolução que transformaria a Rússia, a partir de 1917, na Meca do socialismo mundial.

Em 1919 este movimento marxista teve sua primeira grande divisão. Os que aderiram a tese da tomada de poder por violência, proposta por Lenin, se aglutinaram na Internacional Comunista, fundada pouco antes pelo lider russo. Aqueles que consideravam que no ocidente não seria possível tomar o poder e derrubar a ordem capitalista vigente com a rapidez e a violência da revolução bolchevique, passaram a se chamar socialistas. Se definia assim a Internacional Socialista, distinta da Internacional Comunista dirigida por Lenin. Anos mais tarde, o dirigente soviétido Trotsky daria origem a uma terceira facção dentro do marxismo: foi a corrente anarco-bolchevique, que acusava a Stalin de caminhar muito lentamente para a realização da meta comunista, isto é, a utopia revolucionária. Meta que também é o objetivo das correntes anarquistas propriamente ditas, ou libertárias.

Socialistas, comunistas e anarquistas compartilham uma origem doutrinal comum. Permanecem unidos - diferenciando-se apenas nos métodos de ação - na aspiração de uma mesma meta final, radicalmente igualitária e libertária; e por isso no Ocidente é possível ver, incontáveis vezes, esses grupos formando frentes de ação comum, e até coalizões governamentais para desenvolver determinadas etapas do processo revolucionário.

Sobre o fato histórico desta unidade nas metas, ver, por exemplo, o que diz um porta-voz dos grupos anarquista congregados na CNT - Confederação Nacional do Trabalho, fundado na Espanha por anarco-sindicalistas - : "Por qual tipo de sociedade lutamos? Por uma sociedade sem classes, igualitária, onde necessáriamente os meios de produção estarão socializados (não estatizados), autogestionados pelos próprios trabalhadores (...). A isto é o que chamamos comunismo libertário: uma sociedade autogestionada federal e igualitária".

Na mesma declaração, acrescenta mais adiante: "Não pensamos que haja muitas diferenças entre a concepção da sociedade final a que aspiramos socialistas, comunistas e libertários. Haveriam diferenças nos meios e nas etapas precedentes" (Cfr. Sergio FANJUL, Modelos de transición ao socialismo, pp. 131-132 e 136).

Artigo relacionado: Conexão entre Liberalismo e Igualitarismo na utopia marxista

Fontes:
[1] Cfr. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA, Revolução e Contra-Revolução, pp. 44-41; ver também sobre a relação entre a Revolução Francesa, o movimento de Babeuf e a revolução comunista, Manifesto de fundação da III Internacional in Günter BARTSCH, Kommunismus, p. 80; Friederuch ENGELS, Do socialimo utópico ao comunismo científico, pp. 31-32)

[2] Sobre as relações entre as doutrinas inspiradoras da Revolução Francesa, o movimento de Babeuf e o socialismo utópico do século XIX, ver Julius BRAUNTHAL, Geschichte der internationale, t. I, pp. 45 a 51; Elie HALEVY, Histoire du socialisme européen, pp. 80 a 92. Ademais há um estudo sobre as relações entre a Revolução Francesa e o movimento socialista em Carl MARX e Friederich Engels, Utopisme & communauté de l´avenir, especialmente nas pp. 6 a 8 e 149-150. A esse proprósito, afirma Engels: "O socialismo científico alemão não esqueceu jamais que se edificou sobre os ombros de Saint-Simon, de Fourier e d´Owen"(op. cit., p. 8) Há ainda mais dados esclarecedores sobre as relações entre a Revolução Francesa e o movimento socialista no livro de Filipo Buonarrotti (1761-1837), companheiro de Babeuf na Conspiração dos iguais, de 1796, Histoire de la Conpiration pour l´Égalité, dite de Babeuf , Bruselas, 1828, apud LEHNING, De Buonarrotti a Bakounine, pp. 45-98, e HALEVY, Histoire du socialisme européen, p. 81

[3] Esta tradução, feita pela Academia de Ciências da URSS, retirou ou omitiu em certos trechos o texto de Engels por razões políticas. Entre parenteses temos posto as frases omitidas que figuram em outras traduções.

São Paulo, domingo, 3 de dezembro de 2006

Rafael Correa, um moderado ... até quando?

Autor: Edson   |   15:45   1 comentário

Na natureza há um fato muito singular e também impressionante: a metamorfose da lagarta em borboleta.

O que era um bicho feio e rastejante passa a se tornar uma singela e frágil borboleta que com suas cores e voar incerto alegra e enfeita os jardins.

Salvo as devidas proporções, pode-se considerar também que as pessoas são psicologicamente susceptíveis a metamorfoses, não de forma determinista, mas de forma consentida.

Por causa dos diversos matizes é difícil traçar princípios absolutos a esse fenômeno psicológico que atendam todas as situações possíveis, mas observo que em algumas pessoas essa metamorfose é sincera e em outras é apenas por mero interesse político.

Muitos marxistas - nem todos -, por exemplo, desde a década de 40, começaram a se metamorfosear; de agressivos passaram a ser sorridentes. Evidentemente, isso não passava de uma mera metamorfose de interesse essencialmente político, pois o objetivo era uma desmobilização psicológica do ocidente em relação ao comunismo.

Outro exemplo de metamorfose por interesse político é o caso das eleições equatorianas. Em 15 de Janeiro de 2007, no Equador, o governo esquerdista e populista de Rafael Correa, recentemente eleito, tomará posse da presidência.

Depois de perder no primeiro turno Correa se viu obrigado a adotar a tática da metamorfose. Os eleitores centristas equatorianos, diante do apoio formal de Hugo Chaves e dos discursos extremistas do candidato, resolveram votar no seu opositor: o empresário Álvaro Noboa. A vitória deste não foi suficiente, gerando assim um segundo turno.

Perante essa situação, Rafael Correa amenizou o discurso, passando a se mostrar moderado, dizendo que não era comunista, afimando-se católico praticante, chegando ao ponto de demonstrar simpatias aos EUA e prometendo se distanciar de Chavez caso ele queira se intrometer em assuntos internos do Equador. A tática deu certo e o resultado foi uma expressiva vitória.

O problema é que nossa lagarta não se transformou verdadeiramente. Ela apenas está fantasiada de borboleta, vestida com asas e anteninhas, para agradar o eleitorado centrista - setor onde se encontra o maior número de seus eleitores.

Segundo o chileno José Miguel Insulza, secretário-geral da OEA, "Correa fez um grande esforço, um esforço maciço, para apresentar no segundo turno um programa moderado que atraiu uma quantidade imensa de eleitores.” Mas alertou: “[Ele] terá de responder por todo esse eleitorado”.

Nossa Senhora de Quinche, padroeira do EquadorUma pergunta fica no ar: até quando a lagarta irá se manter fantasiada de borboleta?

Penso que Rafael Correa, no momento em que o ambiente se mostrar propício, irá tirar a máscara de moderado, pois em entrevista a rede de TV Canal 8 ele lembrou a aliança que tem com Hugo Chávez: “Vamos nos aproximar muito, muito de Chávez”, embora ressaltando que seu governo será independente da Venezuela: “Chávez é meu amigo pessoal, mas na minha casa não mandam meus amigos, mando eu. E no Equador, serão os equatorianos”.

Enquanto a opinião pública equatoriana souber que lagarta é lagarta e borboleta é borboleta, não será muito cedo que veremos a queda da máscara.

A lagarta choca os olhos de muitos centristas e conservadores. O problema virá apenas se a extrema esquerda equatoriana souber aplicar na mente dos seus compatriotas uma espécie de anestesia, onde a opinião pública passe a não se importar com a presença da lagarta. Que Nossa Senhora de Quinche, padroeira do Equador, proteja os equatorianos dessa manobra.

Artigo relacionado: Luta pelo centro exige recuo da esquerda